Arquitetura e design intemporal: uma conversa com Carlos Otávio

  • Fotografia Gui Morelli

Sou muito observador. Coleciono imagens, momentos por onde ando e caminhadas são coisas constantes na minha vida em Lisboa. Há coisas que nós arquitetos reparamos muito porque vemos a cidade como estrutura em camadas.

Design em Lisboa: O que o levou à arquitetura?

Carlos Otávio: A arte sempre fez parte das minhas habilidades desde a infância. Comecei minha vida profissional ainda com 18 anos como artista. Quando chegou o momento de decidir que universidade deveria escolher e que atividade profissional deveria seguir, a arquitetura foi uma escolha natural, em que a arte e a técnica se uniram de forma perfeita. A arte continuou a existir dentro do trabalho da arquitetura que virou uma paixão de uma vida inteira.


DL: Houve algum momento ou alguma influência que tenha definido a forma como pensa hoje o espaço?

CO: Na própria formação da Faculdade de Arquitetura os caminhos começaram a aparecer. Tive uma grande empatia pelo trabalho do Frank LLoyd Wright e todas aquelas correntes que entendem que arquitetura e natureza são complementares. Que a arte precisa de existir, pois é o olhar diferenciado que nos posiciona de uma forma única em cada projeto. 


DL: Quando inicia um projeto, por onde começa?

CO: Pela pesquisa, certamente. É preciso antes de tudo entender quais são os objetivos do cliente. Em que contexto é que o projeto vai ser inserido. Que inspirações cada situação deve ter para gerar algo único e pessoal. Seja em um trabalho residencial ou comercial.


DL: Como procura conhecer quem vai habitar o espaço?

CO: Tudo começa com uma boa conversa. Uma conversa descontraída, mas atenta, nos faz conhecer que objetivos o cliente tem. Que valores lhes são mais valiosos. Que sonhos carregam para entregar em nossas mãos o desafio de construir juntos algo que seja significativo para eles.


DL: O que torna uma casa memorável?

CO: Identidade. Algo que só as memórias pessoais são capazes de construir com o tempo. Arquitetura é permanência, solidez. A casa é antes de tudo o abrigo do mundo. Precisa ter aconchego e deve  estar plena do que representa conforto e beleza para quem vai habitar.


DL: Em que momento sente que um projeto encontrou a direção certa?

CO: Desde o princípio que a planta, antes de tudo, diz como os espaços podem ser distribuídos da melhor forma e na proporção certa. A partir daí são as escolhas de moodboard acompanhadas passo a passo com os clientes, que vai criando uma relação de confiança em que o resultado certamente chegará ao seu melhor .


DL: Há alguma qualidade que procura em todos os projetos, independentemente da escala ou do orçamento?

CO: Sim, a intemporalidade. Harmonia entre todos os  elementos é algo ainda fundamental, a proporção de tudo o que vai compor este projeto.


DL: Como olha para a relação entre arquitetura e tempo? Quando pensa num projeto, preocupa-se com a forma como ele será vivido daqui a vinte ou trinta anos?

CO: Como citei anteriormente, arquitetura é permanência. É uma construção que faz história, património. Aquilo que é feito com responsabilidade e talento terá seu valor permanente. Portanto construir com a tecnologia e materiais de construção  do presente mas sempre com uma forma de ver o trabalho de maneira intemporal.

A casa é antes de tudo o abrigo do mundo. Precisa ter aconchego e deve  estar plena do que representa conforto e beleza para quem vai habitar.

DL: O que é que os clientes lhe pedem hoje que não lhe pediam há dez anos?

CO: Não vejo muita diferença nos desejos humanos. Certamente a tecnologia implica em algumas adequações aos espaços de habitar. Mas no fundo, a essência permanece a mesma.  Com o tempo, boa parte dos seus clientes também amadureceram.Sou hoje melhor profissional certamente depois de uma carreira de quase 40 anos e tudo isso me tornou alguém também mais maduro e tranquilo para estar aberto, também, ao novo, mas sabendo conduzir para o que realmente importa. Quem nos procura hoje já sabe dos valores que partilhamos e que são importantes de constar em todos os nossos projetos. A arte, o artesanato como valores culturais, o bom design autêntico e memórias.


DL: Qual é a parte mais difícil de desenhar uma casa para outra pessoa?

CO: Hoje não vejo muita dificuldade. No passado era mais complexo, uma vez que defender os seus valores, adequar as limitações que o terreno ou o espaço determinam, respeitar os limites que a legislação impõe e adequar todos os custos que foram planeados para uma obra não era uma tarefa fácil. A experiência tudo torna mais suave.


DL: Há alguma decisão que só consegue tomar depois de passar tempo no lugar onde vai construir?

CO: Várias. Uma boa arquitetura deve estar em total conexão com o meio exterior. O fluxo natural do vento, o caminhar do sol durante o dia na edificação. A paisagem a ser observada que está lá fora mas que faz parte do projeto da mesma forma. As construções ao redor que vão conversar com a nova arquitetura a ser criada. 


DL: Como escolhe as peças que integram um espaço?

CO: Proporção. Design diferenciado. Qualidade do produto e texturas. Um conjunto com harmonia e perfeição.


DL: Até que ponto o mobiliário ajuda a contar a história de uma casa?

CO: Tudo começa com o mobiliário. Depois da obra em si, é o mobiliário que vai preencher os espaços que serão ocupados. Neles estarão as escolhas e a organização da casa. O bom mobiliário não tem época. Ele fará parte do acervo da família onde muitos momentos serão vividos juntos. 

 

Tudo começa com o mobiliário. Depois da obra em si, é o mobiliário que vai preencher os espaços que serão ocupados. Neles estarão as escolhas e a organização da casa. O bom mobiliário não tem época. Ele fará parte do acervo da família onde muitos momentos serão vividos juntos

DL: Como começou a sua relação com a QuartoSala?

CO: Antes mesmo de morar em Portugal comecei um trabalho para um amigo arquiteto do Algarve (Jaime Coutinho) a decorar sua casa. Tinha feito a arquitetura de interiores no seu apartamento no Brasil e o convite surgiu na sequência deste trabalho. Conheci mais de perto a empresa e o excelente acervo e curadoria do melhor do mobiliário e do design mundial. 


DL: Há materiais aos quais regressa com frequência? Porquê?

CO: Nós, brasileiros, temos uma cultura onde a arquitetura tem muito o uso da madeira. Nos anos 50 e 60 o mundo conheceu-nos tanto na arquitetura quanto no mobiliário de formas únicas. Acho que a madeira nos leva ao contato com a natureza, assim como as pedras naturais também. As pedras  além de belas são resistentes ao tempo.


DL: A sustentabilidade influencia essas escolhas?

CO: Creio que nem chega a ser questão estética, pensar em sustentabilidade passa por valores maiores como ser humano, responsabilidade frente ao Homem e ao planeta que habitamos e que devemos cuidar para as gerações que nos sucederão. Procuro sempre trabalhar com empresas que têm esse compromisso. 


DL: De que forma a cidade condiciona um projeto?

CO: Das mais diversas. Vai do clima que condiciona escolhas e define espaços até a cultura do viver que é própria de cada lugar.


DL: Quando trabalha em geografias diferentes, como evita repetir uma mesma linguagem?

CO: Alguns elementos definem o perfil de trabalho como já foi dito anteriormente. Mas cada trabalho é único. Com escolhas que foram geradas naquele local e que vão ser parte daquela arquitetura. Há algo lindo nas construções pombalinas em Lisboa que é a cruz de Santo André. Algo que realmente compõe de forma sui generis qualquer espaço onde esta característica possa aparecer.

 

DL: Há alguma coisa a que presta atenção e que acha que a maioria das pessoas não repara?

CO: Sou muito observador. Coleciono imagens, momentos por onde ando e caminhadas são coisas constantes na minha vida em Lisboa. Há coisas que nós arquitetos reparamos muito porque vemos a cidade como estrutura em camadas. Suas qualidades e defeitos, suas simetrias e suas irregularidades. Entre estas coisas eu diria que a harmonia das alturas das edificações  em determinadas zonas das cidades. Isto faz muita diferença. Assim com a quantidade de áreas verdes para convidar as pessoas a vivenciar a cidade a pé.

DL: O que observa primeiro quando entra num espaço desconhecido?

CO: Além da estética que, certamente, faz parte do universo profissional, a organização e limpeza dizem muito de um lugar.


DL: Como é que as referências entram no seu processo de trabalho? É possível continuar a surpreender quando vivemos rodeados de imagens?

CO: As referências são o maior acervo de um profissional. São viagens, leituras, exposições memoráveis, momentos em lugares e com pessoas especiais. Começamos um trabalho com todo o acervo adquirido ao longo da vida. Ainda mais, para iniciar um trabalho novo fica fácil fazer uma curadoria para determinados desafios e buscar informações em tudo que a Internet nos fornece, para que a pesquisa seja certeira nos seus objetivos. Eu digo sempre que não existe um corpo sem uma alma. É preciso criar essa alma para esse projeto, alma única que é definida por essas escolhas e surpreender sempre.


DL: Onde procura inspiração fora da arquitetura?

CO: Na arte, nas boas e constantes viagens, na literatura, na natureza. Nos bons momentos ao redor de uma mesa rodeado de amigos a degustar uma das maiores preciosidades que Portugal possui. Num vinho excepcional.


DL: Tem desenvolvido trabalho em Portugal. Que diferenças encontra entre projetar no Brasil e em Portugal?

CO: Tenho desenvolvido diversos trabalhos desde que cheguei a Portugal. São situações muito distintas. No Brasil tenho um escritório robusto com sede em Fortaleza e um acervo de grandes projetos no Brasil inteiro. Em Portugal eu vivo um momento mais tranquilo onde me dedico à excelência no trabalho, à pesquisa e criação. Ao desenvolver projetos aqui, no Brasil e em França descobri que não há grandes mudanças na expectativa das pessoas. Mas há perfis diferentes em cada tipo de projeto e de cliente. Os projetos de alto padrão têm sido meu maior mercado, e neles os valores são sempre muito parecidos.


DL: Há alguma característica da arquitetura portuguesa que lhe desperte especial interesse?

CO: Há na arquitetura antiga características que foram levadas para o Brasil colonial. Há aconchego, identidade, a bela azulejaria que proporciona traços tão preciosos. Portanto, os azulejos portugueses são muito familiares e carregam memórias. A arquitetura residencial atual partiu para o perfil internacional e, nestas, as características igualam-se a de todas as nações. 


DL: Que desafios considera mais importantes para a profissão nos próximos anos?

CO: Elevar sempre o nível de complexidade dos projetos. Hoje estamos a trabalhar em projetos de hotelaria, residenciais de alto padrão, interiores de apartamentos de 300 a 500 m2. Os desafios movem-nos para o futuro.


DL: O que espera que as pessoas sintam quando entram num espaço desenhado por si?

CO: Acolhimento. Verdade. Harmonia.


DL: O que é que a arquitetura ainda lhe traz? Muitos benefícios. Esta carreira tem norteado toda a minha vida. Através desta profissão aprendi a ver o mundo que me rodeia de uma forma única. Conheci através do trabalho muitos amigos. A relação tão próxima, e durante tanto tempo, faz dessas coisas, aproxima as pessoas para uma outra relação, a amizade. Através da arquitetura pude construir esse acervo espetacular de vivências pelo mundo, escolhendo outro país para morar e viver coisas novas – Portugal.

 

Design em Lisboa: O que o levou à arquitetura?

Carlos Otávio: A arte sempre fez parte das minhas habilidades desde a infância. Comecei minha vida profissional ainda com 18 anos como artista. Quando chegou o momento de decidir que universidade deveria escolher e que atividade profissional deveria seguir, a arquitetura foi uma escolha natural, em que a arte e a técnica se uniram de forma perfeita. A arte continuou a existir dentro do trabalho da arquitetura que virou uma paixão de uma vida inteira.


DL: Houve algum momento ou alguma influência que tenha definido a forma como pensa hoje o espaço?

CO: Na própria formação da Faculdade de Arquitetura os caminhos começaram a aparecer. Tive uma grande empatia pelo trabalho do Frank LLoyd Wright e todas aquelas correntes que entendem que arquitetura e natureza são complementares. Que a arte precisa de existir, pois é o olhar diferenciado que nos posiciona de uma forma única em cada projeto. 


DL: Quando inicia um projeto, por onde começa?

CO: Pela pesquisa, certamente. É preciso antes de tudo entender quais são os objetivos do cliente. Em que contexto é que o projeto vai ser inserido. Que inspirações cada situação deve ter para gerar algo único e pessoal. Seja em um trabalho residencial ou comercial.


DL: Como procura conhecer quem vai habitar o espaço?

CO: Tudo começa com uma boa conversa. Uma conversa descontraída, mas atenta, nos faz conhecer que objetivos o cliente tem. Que valores lhes são mais valiosos. Que sonhos carregam para entregar em nossas mãos o desafio de construir juntos algo que seja significativo para eles.


DL: O que torna uma casa memorável?

CO: Identidade. Algo que só as memórias pessoais são capazes de construir com o tempo. Arquitetura é permanência, solidez. A casa é antes de tudo o abrigo do mundo. Precisa ter aconchego e deve  estar plena do que representa conforto e beleza para quem vai habitar.


DL: Em que momento sente que um projeto encontrou a direção certa?

CO: Desde o princípio que a planta, antes de tudo, diz como os espaços podem ser distribuídos da melhor forma e na proporção certa. A partir daí são as escolhas de moodboard acompanhadas passo a passo com os clientes, que vai criando uma relação de confiança em que o resultado certamente chegará ao seu melhor .


DL: Há alguma qualidade que procura em todos os projetos, independentemente da escala ou do orçamento?

CO: Sim, a intemporalidade. Harmonia entre todos os  elementos é algo ainda fundamental, a proporção de tudo o que vai compor este projeto.


DL: Como olha para a relação entre arquitetura e tempo? Quando pensa num projeto, preocupa-se com a forma como ele será vivido daqui a vinte ou trinta anos?

CO: Como citei anteriormente, arquitetura é permanência. É uma construção que faz história, património. Aquilo que é feito com responsabilidade e talento terá seu valor permanente. Portanto construir com a tecnologia e materiais de construção  do presente mas sempre com uma forma de ver o trabalho de maneira intemporal.

A casa é antes de tudo o abrigo do mundo. Precisa ter aconchego e deve  estar plena do que representa conforto e beleza para quem vai habitar.

DL: O que é que os clientes lhe pedem hoje que não lhe pediam há dez anos?

CO: Não vejo muita diferença nos desejos humanos. Certamente a tecnologia implica em algumas adequações aos espaços de habitar. Mas no fundo, a essência permanece a mesma.  Com o tempo, boa parte dos seus clientes também amadureceram.Sou hoje melhor profissional certamente depois de uma carreira de quase 40 anos e tudo isso me tornou alguém também mais maduro e tranquilo para estar aberto, também, ao novo, mas sabendo conduzir para o que realmente importa. Quem nos procura hoje já sabe dos valores que partilhamos e que são importantes de constar em todos os nossos projetos. A arte, o artesanato como valores culturais, o bom design autêntico e memórias.


DL: Qual é a parte mais difícil de desenhar uma casa para outra pessoa?

CO: Hoje não vejo muita dificuldade. No passado era mais complexo, uma vez que defender os seus valores, adequar as limitações que o terreno ou o espaço determinam, respeitar os limites que a legislação impõe e adequar todos os custos que foram planeados para uma obra não era uma tarefa fácil. A experiência tudo torna mais suave.


DL: Há alguma decisão que só consegue tomar depois de passar tempo no lugar onde vai construir?

CO: Várias. Uma boa arquitetura deve estar em total conexão com o meio exterior. O fluxo natural do vento, o caminhar do sol durante o dia na edificação. A paisagem a ser observada que está lá fora mas que faz parte do projeto da mesma forma. As construções ao redor que vão conversar com a nova arquitetura a ser criada. 


DL: Como escolhe as peças que integram um espaço?

CO: Proporção. Design diferenciado. Qualidade do produto e texturas. Um conjunto com harmonia e perfeição.


DL: Até que ponto o mobiliário ajuda a contar a história de uma casa?

CO: Tudo começa com o mobiliário. Depois da obra em si, é o mobiliário que vai preencher os espaços que serão ocupados. Neles estarão as escolhas e a organização da casa. O bom mobiliário não tem época. Ele fará parte do acervo da família onde muitos momentos serão vividos juntos. 

 

Tudo começa com o mobiliário. Depois da obra em si, é o mobiliário que vai preencher os espaços que serão ocupados. Neles estarão as escolhas e a organização da casa. O bom mobiliário não tem época. Ele fará parte do acervo da família onde muitos momentos serão vividos juntos

DL: Como começou a sua relação com a QuartoSala?

CO: Antes mesmo de morar em Portugal comecei um trabalho para um amigo arquiteto do Algarve (Jaime Coutinho) a decorar sua casa. Tinha feito a arquitetura de interiores no seu apartamento no Brasil e o convite surgiu na sequência deste trabalho. Conheci mais de perto a empresa e o excelente acervo e curadoria do melhor do mobiliário e do design mundial. 


DL: Há materiais aos quais regressa com frequência? Porquê?

CO: Nós, brasileiros, temos uma cultura onde a arquitetura tem muito o uso da madeira. Nos anos 50 e 60 o mundo conheceu-nos tanto na arquitetura quanto no mobiliário de formas únicas. Acho que a madeira nos leva ao contato com a natureza, assim como as pedras naturais também. As pedras  além de belas são resistentes ao tempo.


DL: A sustentabilidade influencia essas escolhas?

CO: Creio que nem chega a ser questão estética, pensar em sustentabilidade passa por valores maiores como ser humano, responsabilidade frente ao Homem e ao planeta que habitamos e que devemos cuidar para as gerações que nos sucederão. Procuro sempre trabalhar com empresas que têm esse compromisso. 


DL: De que forma a cidade condiciona um projeto?

CO: Das mais diversas. Vai do clima que condiciona escolhas e define espaços até a cultura do viver que é própria de cada lugar.


DL: Quando trabalha em geografias diferentes, como evita repetir uma mesma linguagem?

CO: Alguns elementos definem o perfil de trabalho como já foi dito anteriormente. Mas cada trabalho é único. Com escolhas que foram geradas naquele local e que vão ser parte daquela arquitetura. Há algo lindo nas construções pombalinas em Lisboa que é a cruz de Santo André. Algo que realmente compõe de forma sui generis qualquer espaço onde esta característica possa aparecer.

 

DL: Há alguma coisa a que presta atenção e que acha que a maioria das pessoas não repara?

CO: Sou muito observador. Coleciono imagens, momentos por onde ando e caminhadas são coisas constantes na minha vida em Lisboa. Há coisas que nós arquitetos reparamos muito porque vemos a cidade como estrutura em camadas. Suas qualidades e defeitos, suas simetrias e suas irregularidades. Entre estas coisas eu diria que a harmonia das alturas das edificações  em determinadas zonas das cidades. Isto faz muita diferença. Assim com a quantidade de áreas verdes para convidar as pessoas a vivenciar a cidade a pé.

Sou muito observador. Coleciono imagens, momentos por onde ando e caminhadas são coisas constantes na minha vida em Lisboa. Há coisas que nós arquitetos reparamos muito porque vemos a cidade como estrutura em camadas.

DL: O que observa primeiro quando entra num espaço desconhecido?

CO: Além da estética que, certamente, faz parte do universo profissional, a organização e limpeza dizem muito de um lugar.


DL: Como é que as referências entram no seu processo de trabalho? É possível continuar a surpreender quando vivemos rodeados de imagens?

CO: As referências são o maior acervo de um profissional. São viagens, leituras, exposições memoráveis, momentos em lugares e com pessoas especiais. Começamos um trabalho com todo o acervo adquirido ao longo da vida. Ainda mais, para iniciar um trabalho novo fica fácil fazer uma curadoria para determinados desafios e buscar informações em tudo que a Internet nos fornece, para que a pesquisa seja certeira nos seus objetivos. Eu digo sempre que não existe um corpo sem uma alma. É preciso criar essa alma para esse projeto, alma única que é definida por essas escolhas e surpreender sempre.


DL: Onde procura inspiração fora da arquitetura?

CO: Na arte, nas boas e constantes viagens, na literatura, na natureza. Nos bons momentos ao redor de uma mesa rodeado de amigos a degustar uma das maiores preciosidades que Portugal possui. Num vinho excepcional.


DL: Tem desenvolvido trabalho em Portugal. Que diferenças encontra entre projetar no Brasil e em Portugal?

CO: Tenho desenvolvido diversos trabalhos desde que cheguei a Portugal. São situações muito distintas. No Brasil tenho um escritório robusto com sede em Fortaleza e um acervo de grandes projetos no Brasil inteiro. Em Portugal eu vivo um momento mais tranquilo onde me dedico à excelência no trabalho, à pesquisa e criação. Ao desenvolver projetos aqui, no Brasil e em França descobri que não há grandes mudanças na expectativa das pessoas. Mas há perfis diferentes em cada tipo de projeto e de cliente. Os projetos de alto padrão têm sido meu maior mercado, e neles os valores são sempre muito parecidos.


DL: Há alguma característica da arquitetura portuguesa que lhe desperte especial interesse?

CO: Há na arquitetura antiga características que foram levadas para o Brasil colonial. Há aconchego, identidade, a bela azulejaria que proporciona traços tão preciosos. Portanto, os azulejos portugueses são muito familiares e carregam memórias. A arquitetura residencial atual partiu para o perfil internacional e, nestas, as características igualam-se a de todas as nações. 


DL: Que desafios considera mais importantes para a profissão nos próximos anos?

CO: Elevar sempre o nível de complexidade dos projetos. Hoje estamos a trabalhar em projetos de hotelaria, residenciais de alto padrão, interiores de apartamentos de 300 a 500 m2. Os desafios movem-nos para o futuro.


DL: O que espera que as pessoas sintam quando entram num espaço desenhado por si?

CO: Acolhimento. Verdade. Harmonia.


DL: O que é que a arquitetura ainda lhe traz? Muitos benefícios. Esta carreira tem norteado toda a minha vida. Através desta profissão aprendi a ver o mundo que me rodeia de uma forma única. Conheci através do trabalho muitos amigos. A relação tão próxima, e durante tanto tempo, faz dessas coisas, aproxima as pessoas para uma outra relação, a amizade. Através da arquitetura pude construir esse acervo espetacular de vivências pelo mundo, escolhendo outro país para morar e viver coisas novas – Portugal.

 

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